segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Outono


OUTONO




Se deste outono uma folha, 
apenas uma, se desprendesse

da sua cabeleira ruiva,

sonolenta,




e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,

seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,



a terra quente e tão avara
de alegria.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 4 de outubro de 2018


VOZES DO MAR




Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?







Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!
Florbela Espanca